Notícias e fotografias locais podem registrar encalhes de Sargassum antes de esses eventos aparecerem em artigos científicos. Um estudo publicado em julho de 2026 reuniu registros da mídia e da literatura para mapear ocorrências na costa brasileira entre 2010 e 2025.
Monitorar uma costa enorme como a brasileira tem um problema básico: nem todo evento chega primeiro a um artigo científico. Um encalhe de Sargassum pode aparecer em uma reportagem, numa fotografia local ou numa notícia muito antes de virar dado padronizado.
Um estudo publicado em julho de 2026 juntou registros científicos e registros encontrados na mídia para reconstruir ocorrências de encalhes de Sargassum na costa brasileira entre 2010 e 2025. Foram compilados 51 registros. A maior parte vinha de fontes de mídia, enquanto a literatura científica oferecia menos registros, porém com identificação e documentação mais controladas.
Um erro que muda a interpretação
Nos registros científicos, os autores encontraram confirmação de espécies pelágicas como Sargassum natans e Sargassum fluitans. Em registros de mídia, porém, houve casos em que outras macroalgas foram tratadas como Sargassum. Para gestão costeira, isso importa muito: se a identificação está errada, o mapa do fenômeno também fica errado.
O problema da ausência de quantidade
Outro ponto que me chamou atenção foi a falta de dados quantitativos de biomassa em boa parte dos registros. “Houve encalhe” é informação útil, mas não responde sozinho se foi um evento pequeno, recorrente ou excepcional. Para comparar anos e regiões, é preciso padronizar mais o que se registra.
Por que juntar ciência e mídia, então?
Porque uma fonte pode ajudar a cobrir lacunas da outra, desde que exista verificação. Para monitoramento costeiro, reportagens e registros digitais podem funcionar como sinais de alerta e ampliar a detecção. A ciência entra com identificação taxonômica, método, medida e validação. O ganho está na integração, não na substituição.
Esse tipo de abordagem me interessa porque gestão costeira depende muito de séries de dados que quase nunca nascem perfeitas. Às vezes, a primeira tarefa é justamente descobrir quais registros existem, quanto podemos confiar neles e o que ainda precisa ser medido melhor.
Mesquita, G. P.; De Andrade, L. C.; Massabni, V. G.; Rossignolo, J. A. (2026). Sargassum Strandings on the Brazilian Coast: Integrating Scientific and Media Records to Support Coastal Conservation and Monitoring. Aquatic Conservation: Marine and Freshwater Ecosystems, 36(7), e70431.
DOI: 10.1002/aqc.70431