Encontrar microplásticos em peixes é apenas o primeiro passo. Também é preciso investigar como a contaminação varia entre espécies, locais e épocas do ano.
Um estudo de 2026 analisou quatro espécies de peixes comerciais do Sudeste brasileiro e tentou entender por que a contaminação varia entre ambientes, estações e indivíduos.
A pesquisa comparou peixes coletados nas baías de Sepetiba e Ilha Grande, no Rio de Janeiro, em períodos de verão e inverno. Ao todo, foram analisados 289 indivíduos de quatro espécies: Caranx crysos, Sardinella aurita, Menticirrhus americanus e Micropogonias furnieri.
O resultado mais importante não é apenas “tem microplástico”
Microplásticos apareceram em 83,1% dos indivíduos analisados. Mas o estudo foi além da presença ou ausência: os autores testaram se a quantidade variava com pressão humana, estação do ano, tamanho corporal, posição da espécie na coluna d’água e tipo de tecido.
As maiores cargas estiveram associadas ao ambiente mais impactado antropicamente e ao verão. Também apareceu uma relação negativa com o tamanho corporal. Por outro lado, o estudo não encontrou diferença significativa entre espécies pelágicas e demersais nem entre trato digestório e músculo nas análises realizadas.
E o que isso tem a ver com gestão costeira?
Muito. Se áreas mais impactadas concentram cargas maiores, programas de monitoramento podem priorizar regiões urbanizadas, fontes de emissão e períodos em que o transporte e a ressuspensão de partículas aumentam. Em vez de apenas registrar presença, a gestão pode tentar entender onde e quando o problema se intensifica.
Esse tipo de estudo também ajuda a evitar simplificações. Não dá para olhar um único peixe e concluir a condição de uma costa inteira. É preciso desenho amostral, comparação entre locais, estações e espécies — e métodos capazes de confirmar que as partículas encontradas são realmente microplásticos.
O que eu levo desse artigo
A pergunta mais útil não é “existe microplástico aqui?”. Em muitos ambientes costeiros, a resposta provavelmente será sim. A questão que ajuda a orientar pesquisa e gestão é: quanto, onde, em quem, em que época e associado a quais pressões?
É esse salto — da presença para o padrão — que transforma um achado em informação útil para ecologia e gestão ambiental.
Cordeiro, L. et al. Influence of biological, ecological, and anthropogenic factors on microplastic contamination in coastal fishes from Southeastern Brazil. Environmental Biology of Fishes, 109, artigo 82, 2026.
DOI: 10.1007/s10641-026-01845-5